Estamos no mesmo barco e ele ainda flutua. Apesar dos pesares, fazia-se necessário o equilíbrio. Ao sabor do acaso, era preciso que ambas as partes pudessem, não se completar, mas se combinar da melhor forma possível. Isso servia, inevitavelmente, para tudo na vida. Qual me leva, qual me prende? Sorte e acaso, quem sabe? Por onde ir? Haviam muitos caminhos, com possíveis saídas. Como um episódio de Fringe, onde você descobre que cada escolha leva a uma realidade totalmente diferente em outro universo, onde quer que ele exista. Daí, fica fácil se perguntar "e se?". Então a resposta vem a cavalo: Erraria tudo exatamente igual!
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Para ouvir ;)
Então erguemos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia.
Assinado, Eu.
Estava
lá. Ao longe, mas não tão longe, podia se ouvir uma música ruim,
dessas que muita gente ouve por falta de opção. Ainda assim, aquele
momento parecia ser legal, porque estava distante de tudo. A mente
vagava pelo passado de uma história que não aconteceu. Sozinha, ou
na companhia de um sapo cor laranja de cerâmica, recordava daquele
dia de chuva onde tudo se deu.
Sim,
chovia. E realmente parecia uma cena de filme, daquelas em que o
personagem sai de casa, totalmente desprevenido e o temporal cai.
Quando não havia nenhum abrigo e só as gotas d'água caindo do céu,
nos deparamos. Dois estranhos a procura de abrigo. Não era do mau
tempo que fugíamos. Fugíamos daquela vida pacata, onde nada
acontecia e a solidão nos fazia companhia. Eram duas cabeças que,
embora em corpos diferentes, imaginavam as mesmas coisas, com os
mesmos ideais de liberdade. Ou ao menos era o que se sentia sobre
isso.
-
Droga, só me faltava essa, chegar encharcada em casa!
- Ah,
que nada! Um banho de chuva sempre lava a alma... Acho que te conheço
de algum lugar.
Não nos
conhecíamos, nunca havíamos passado perto um do outro. Era uma
desculpa típica para alongar a conversa. Trocamos nome, identidades,
afinidades, tudo no tempo de um temporal. Decerto, que incerta era a
situação. Não cabia enxergar tantos sinais numa só ocasião.
Trocamos, junto ao nome, às identidades e afinidades, os telefones e
um sorriso de despedida ao sair do sol. Seguimos nossos caminhos.
- Bom,
parou. Acho que já podemos ir.
- É,
acho que sim. Vou por aqui.
-
Então, nos despedimos, minha casa é pro outro lado.
E era
definitivamente uma manhã de domingo incomum. O mais curioso de tudo
era o fato de, depois de tanta chuva, o sol estar lá, brilhando de
um jeito quase de quem tenta dizer: "Eu sei que você está me
admirando". Sentada na varanda, um copo de suco e um livro, o
telefone tocou. Era uma voz estranha a que falava do outro lado da
linha. A voz convidava para um sorvete no mesmo parque, no próximo
domingo. Sobrou uma resposta em aberto, a indecisão. De onde estava,
dava pra ver um relevo bem incerto e belo. Parara de ventar.
Uma
semana depois, com todo o ceticismo acumulado, o sorvete parecia um
programa divertido e a loucura daquele encontro nem era tão louca
assim. No fim das contas, era para mim uma companhia agradável, que
fazia a ambos esquecer aquele velho mundo das obrigações.
E assim
ficou: o descanso dos finais de semana, agora não apenas aos
domingos, estendendo-se aos sábados, depois feriados. Fazendo bolhas
de sabão, acampando, conhecendo um restaurante por vez, o tempo
corria mais leve, até devagar. A satisfação de segunda a sexta se
resumia na pressa da distração. Incrivelmente, poderia lhe entregar
meu coração, mas o sorriso bastava. Precisamos mudar. Mais uma vez
caminhos diferentes. Combinamos então que os sorrisos que havíamos
colecionado naqueles fins de semana bastavam. E assim foi a história
do que não foi. Só por isso aquela música ruim não chateava. Não
era nela que se pensava quando o vento soprava no rosto, numa nova
varanda, fazendo lembrar dos dias de temporal em que se conhecem
distrações. Só por isso.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Para ouvir :)
Espero que curtam o som. Orala Johnson (Rella J) tem uma voz muito legal e um ritmo que particularmente me agrada em suas composições e arranjos, além de ser uma pessoa bem divertida (tive o prazer de conhecê-la e vê-la se apresentando de perto :D).
A pequena miss Sunshine
Olhava
ao longe aquele Sol a se por. Ao mesmo tempo em que atirava pedrinhas
no lago, só pelo prazer de vê-las formar ondas na água,
perguntava-se se tudo o que estava fazendo tinha algum sentido, se
valia mesmo a pena. Num conflito agora quase que diário, um dos
muitos poucos desejos que passavam pela cabeça era o de aquela maré
passasse logo, tão de repente quanto como chegara.
O
laranja se tornava mais forte aos poucos e a fazia lembrar que 'o
essencial é invisível aos olhos'. Talvez por isso as pessoas não
conseguissem enxergar o que ela via, ou do ângulo que via. Ficava
fácil deturpar os porquês de um passado desconhecido. E mesmo sendo
aquela que mais devesse se importar, não estava ao menos preocupada.
Os mais sábios contam que o passado é algo que se deve deixar lá,
onde aconteceu. O professor de sociologia, por sua vez, sempre dizia
que nós, por mais brilhantes que fôssemos, éramos uma consequência
do tempo em que vivíamos. Isso era inegável.
A
questão inteira girava em torno de uma coisa só: a dor. Mas não
uma dor presente, e sim prevista para acontecer, filha de uma
'pre'ocupação demasiada. Naquele momento, enquanto todos os outros
se preocupavam com a dor que ainda não viera (nem se sabia realmente
se viria, embora a maioria achasse daquilo tudo algo incontestável),
não percebiam que era essa questão que agora gerava a dor. Como
quando se aponta o dedo sem notar outros três na direção
contrária. Onde se previa sofrimento, acontecia felicidade. Mas
essa, não se sabe porque, era ignorada aos olhos dos outros. Porque
o essencial, no fim das contas, era que ela estivesse feliz, mas o
essencial é invisível aos olhos, ao menos aos daqueles a quem
convém não enxergar.
No
restinho de luz que havia, encontrava sua conclusão: não se
importava nem com passados, nem com as preocupações dos outros. Na
sua fila de prioridades estava agora a vontade de estar bem. Se tudo
aquilo acabasse em dor, que diferença havia? Ao menos tinha
aproveitado a parte boa, a parte sorridente de tudo. Haveria crescido
com todas as experiências e aprenderia a perder outros tantos medos.
E era feliz em saber que se amava e sabia que, à revelia do mundo
inteiro, a parte mais importante era que conhecia alguém que nunca a
abandonaria: ela mesma.
domingo, 12 de agosto de 2012
Vídeo ;)
Olha só o que achei: essa pequena estrela cantando Rolling in the deep, música da Adele. Muito fofo!
Fênix
Não era o sonho que era bom. O medo de acordar, de cair na
real, isso sim era forte demais. Impedia-a de pensar. Sobre todas as coisas que
haviam acontecido, pela magia de como as palavras pareciam ter efeito, não aos
ouvidos, mas ao coração, é que agora acordar doía tanto. Ela era consciente da
decisão. Sabia que fizera a coisa certa. Mas, ainda assim, magoava aquele
pensamento. O status mudara de um dia para o outro, mas a alma levaria mais
tempo.
Tinha certeza de que ficaria bem. Já passara por aquilo
muitas vezes, um processo de desintoxicação, quase. Era difícil, cruel consigo
mesma. Mas, no fim das contas, não lhe caía bem adiar sofrimento. Diante do
espelho, consolava a si mesma, repetindo um mantra: eu me amo, não estou só.
Aos olhos dos outros, soava piegas as suas maneiras de
expressar o que sentia. Com coisas feitas à mão, escritas, significativas, era
que se tentava dizer o quanto era feliz em ter aquele nome na mente. Com toda a
certeza que nunca teve em qualquer outra época, ela sabia que vivera os
melhores momentos da sua vida, não porque tivesse conhecido novos lugares, ou
saído pra jantar várias vezes, mas porque havia sido amada de uma maneira inigualável.
Era compreendida e se fazia compreender. Mas agora, quando nada daquilo
existia, apenas a tristeza, no fundo ela sabia que não podia se queixar, porque
as coisas eram assim. Rápidas. Ninguém lhe disse, nunca, que a felicidade
durava. E, se durasse, fosse monótono também, não seria felicidade. Agora,
existia algo bom a se fazer, não por ninguém, mas pelo alguém que ela mais
amava: a si mesma. Sua tarefa era sarar. Preparar-se para outra maré de
felicidade, colocar um sorriso sincero no rosto e viver, encontrar seu tempo e
a ela mesma no mundo.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Para Ouvir ♪
Assim Caminha a Humanidade - Se há alguma dor de cotovelo, eu diria que essa é 'A Música' pra curar! Lulu Santos manda muito bem =]
Ainda leva uma cara
Pra gente poder dar risada
Assim caminha a humanidade
Com passos de formiga
E sem vontade...
Expresso
O banho havia sido tudo, depois
daquela maratona. Entre ônibus, avião, escala, avião, ônibus, chegar ao hotel, ter o direito de passar quase meia hora no chuveiro era uma bênção. Cabelo
molhado, a vontade maior era a de dormir, mas, embora o corpo clamasse por
isso, sua mente ainda ficaria acordada por um bom tempo. Estava no oitavo andar
e, lá em baixo, passavam centenas de carros, indo e vindo de todos os lugares
possíveis. Num impulso de curiosidade, sentou sobre a mesa que ficava em frente
à pequena janela, afastou as cortinas e a abriu. Abraçou suas pernas, apoiando
o queixo nos joelhos, e ficou ali, a admirar as luzes da cidade.
O vento que entrava era frio, mas
não existia rejeição alguma àquela sensação. Pensava no fato de que a maioria
das pessoas com as quais convivera até ali pensava apenas em diversão,
despreocupação, descompromisso com o futuro. Entretanto, aquelas pessoas não
estavam ali, naquele momento, para descobrir o que realmente valia. Ninguém
nunca imaginou que ela estaria assim, um dia. Não tão cedo. Tudo tinha valido a pena. Valeria, por
quanto tempo fosse.
Voltando a si, ao quarto,
percebeu que seu corpo reclamava, não mais pelo cansaço. Estava com fome.
Imediatamente fechou a janela, desceu da mesa, trocou de roupa e saiu à procura
do que comer. Aproveitando a deixa, resolveu nem ir ao bar do hotel, passando
direto para a rua. Logo encontrou um restaurante, comida italiana. Como era
estranho dividir uma mesa com o nada! Mas não havia ressentimento por isso,
estava tranquila.
Retornou. Só restava uma coisa a
fazer naquele dia. Tirou o cartão da bolsa, abriu a porta, lembrando-se de
pendurar o “Não incomode”. Vestiu a roupa de dormir, pegou seu computador, deitou
numa cama confortável, convidativa. Abriu a página do e-mail e com um singelo ‘Cheguei. A viagem foi tranquila. A vista é
boa. Estou com saudades. Beijo.’ avisou que estava bem. Era hora de dormir,
preparar-se para um novo dia, cheio de surpresas, sonhos e projetos. Um dia de
vencer.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Para Ouvir ♫
Taí uma beleza de música! A composição do Belchior, interpretada pela banda Los Hermanos, fica ainda melhor (e tem gente que acha que isso é impossível :) ). Um bom som para ouvir perto das doze badaladas!
Vaidade
Olhando pra
uma prateleira inteira de sapatos de salto alto, ela se lembrava de como era
boa a sensação de surpreender. Um bom salto fazia uma grande diferença em tudo,
e ela mesma era uma prova disso. De todos os modelos possíveis, pegava uns
cinco pares e começava a prová-los, mas no final das contas, acabava querendo
comprar todos e então, como se fossem cães num petshop, eles faziam cara de ‘compre-me,
por favor’. Não que fosse egoísta ou
apegada a essas futilidades, pelo contrário, permanecia centrada em seus
objetivos, entre os quais não figurava passar tardes inteiras escolhendo roupas
ou calçados ou joias. Apenas fazia-lhe bem se sentir bem.
Naquela nova
fase, poucas eram as coisas que proporcionavam essa sensação de bem-estar.
Poucas e simples, as quais faziam todas as outras parecerem medíocres, pequenas
demais.
- Como foi seu
dia?
- Ah, dei uma
passada no shopping, achei o sapato perfeito pro dia da festa.
- Mais um
sapato? – não era um tom de censura, mas de riso, seguido por um beijo na testa
– Daqui a alguns dias eu espero que todos esses pés apareçam.
- E,
obviamente, você continuaria me querendo, mesmo que eu tivesse 50 pés. Admita.
- É,
continuaria, Dona Centopeia.
Naquelas
tardes em que não se tinha nada por fazer, a não ser sorrir ou cantarolar,
nossa personagem fazia questão de lembrar duas coisas. A primeira era que a
vida havia sido generosa com ela. A segunda, a generosidade da vida não dura
para sempre, então ela deveria estar preparada. Para quê? Não se sabia. Mas de
que poderia ela reclamar, quando tinha a chance de escolher um bom livro, tirar
aquela velha manta do armário e partir ao jardim para ler sob o Sol da tarde?
Seria injusta qualquer reclamação.
- Sabe, gosto
de te ver assim.
- Assim como? –
Desistiu, deixando o livro aberto na página que estava lendo e virando-se em
direção à voz. – Uma pintura mal feita de Alice no País das Maravilhas sem
livro de matemática e árvore? – O tom era simplesmente de brincadeira.
- Também, mas
eu ia dizer assim, com o cabelo bagunçado, esquecida do mundo enquanto lê. O
tipo de cena que me deixa em paz. –
Concordou ele, com doce um sarcasmo e sinceridade imensa na voz ao mesmo tempo.
Mal sabia que
não era ele que estava em paz por aquilo, mas ela, presa a um universo em que
tudo fazia sentido, livre e colorido. E assim, voltou a ler, sabendo quem era,
onde estava e que era feliz pelas pequenas coisas da vida.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Para Ouvir ♪
Mais um achado musical =] A voz marcante da Andréa Martins com Canto dos Malditos na Terra do Nunca (CMTN). Embora a banda tenha sido desfeita, as letras são muito legais, assim como o arranjo.
Diálogo de um monólogo (Ou seria Monólogo de um diálogo?)
Minha nossa! Era sono demais pra
uma pessoa só. Tanto por fazer, e parecia que ali havia apenas um corpo,
inerte. Lá fora, as máquinas faziam barulhos, num vai e vem pela rua que
estremecia o vidro da janela. No som, tocava aquela música que lembrava o tudo
e o nada. Uma passada pelo espelho.
- Você é maluca.
Sempre que possível, fazia bem
conversar consigo mesma. Era como concordar e discordar de todas as coisas que
estava fazendo. Naquela conversa, eram duas pessoas, com duas coisas na cabeça:
você está certa, e incrivelmente feliz; você é louca e vai se ferir, muito. O
mais importante nisso tudo era que, embora as personagens desse diálogo sempre
se confrontassem, divididas entre o certo e o errado, acabavam por escolher a mesma
opinião, como se no final da discussão chegassem à conclusão de que a
prioridade, no momento, era a busca do equilíbrio.
Era essa busca, a peça que fazia
toda a diferença, que justificaria todo o mal ou bem que se colhesse à frente.
E nisso, não só as duas concordavam, mas outras mais, as guardiãs. O trabalho
delas era, de tão complexo, simples: tentar entender e aceitar.
- Eu posso arcar com as
consequências.
- Não, você não pode.
- Posso. Ou não. Mesmo assim,
valeria a pena.
- Sim. Valeria a pena.
Um eco, sempre, a cada diálogo
interno. Costumava vir depois de uma ligação, uma vídeo-chamada, um sorriso
bobo depois de um bom dia, a leitura e releitura das palavras de e-mails trocados,
ou, mais simples, sempre antes de dormir. Mas ela sempre sabia quem ganhava. Na
verdade, nenhuma das duas. Um terceiro personagem, que fazia tudo parecer mais
fácil, mantinha o equilíbrio daquele sistema e despertava um medo, como nunca
visto antes. O medo de atravessar a porta sem saber o que havia do outro lado,
sem saber pelo que lutar ou o que esperar. Mas, como ela sempre soube, era tudo
uma questão de equilíbrio.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Para Ouvir ♫
Vai aí uma dica de música boa, divertida e leve: Monomania, da Clarice Falcão. Vale muito a pena parar e ouvir =D
Quase sem querer
O telefone tocava. Era difícil
atender quando se começava a ouvir a música boa de Nando.
- Alô?
- Oi, sou eu! Vai fazer o que
hoje a tarde?
- Oii! Tem nada pra fazer não...
- Vamos passear? Bora pra orla!
- Ah, vamos! Mas já tarde, né? Tô
precisando ver o Sol se por.
- Ah, é, eu também.
- Então tá, às quatro eu passo aí
e a gente vai.
- Ok. Beijo.
- Beijo. Tchau.
Depois de muito tempo em
turbulência, parecia que as coisas estavam se ajeitando. Não do modo ‘voltando
ao lugar de sempre’, mas se configurando de uma nova maneira, mais leve, mais
bonita. Mais feliz. Embora tudo as acusasse de loucura aguda, a amizade que
havia ali era capaz de compreender o tempo tão igual e ao mesmo tempo tão
distinto pelo qual haviam passado. Coisas que as palavras não eram capazes de
dizer, porque não havia para aqueles sentimentos. E, mesmo no silêncio, uma era
consciente do pensamento da outra.
Por um tempo, esse silêncio era
necessidade. Alma em férias, talvez. Algo acontecia, e não existia um motivo
claro para que as mudanças as afetassem tanto. Talvez duas moradoras de outros
B612 pelo universo afora. Muito sensíveis até às mudanças de tempo, que dirá de
humor. Era uma precisão de carinho gratuito, de sorriso sincero, de paz. Apenas
uma escolha do que importava.
Com o tempo, aprenderam a ver além
do que se vê, perceberam o que era importante. E nessa nova fase, figurava a
compreensão do que cada uma vivia, porque no fim das contas era tudo muito
parecido.
- Tô aqui em baixo, já.
- Ok, já tô descendo.
- Simbora?
- AGORA!
Se aquilo não era a volta da
felicidade, outra coisa não haveria de ser. O som em volume máximo, num CD de Biquíni,
e duas backing vocal que não tinham a menor preocupação em estarem afinadas. De
sorriso no rosto, sentaram na areia fofa da praia e simplesmente se xingaram
com aqueles apelidos habituais. Riram, cataram peixinhos nos corais e, mesmo
sem dizer muito, sabiam que podiam contar uma com a outra e que seriam felizes
assim. Só isso bastava. O Sol se despedia, mas como um pacto, a alegria iria
continuar, no que dependesse delas, ainda por muito tempo.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Mais um.
Mais
um dia. Como de costume, abria seu notebook e acessava o e-mail, pedindo aos
céus que não encontrasse novos problemas na caixa de entrada. Era fácil se
deixar prender pelo olhar depois que isso acontecia. Fechava o navegador e, de
súbito, se deparava com o papel de parede: dois seres sorridentes num abraço
incontido, que o permitia demorar sempre um pouco mais para admirar a cena. E,
depois desse ritual, era a hora de descer as escadas e pontuar, mentalmente, as
atividades para o dia.
Por
incrível que pareça, naquele dia não havia muito a fazer, as férias estavam
chegando e os professores, terminando as provas. Faltava uma, apenas, e o que
deveria ser feito era simples: pegar a mala, colocar no carro e dirigir, por
quilômetros quase sem fim nesses últimos meses, para chegar ao desconhecido,
onde só uma coisa importava. O sorriso.
Era
tudo incerto, confuso. Mas àquele ponto, a confusão já havia se transformado em
certeza, afirmação. Talvez ele pudesse dizer escolha. Soava estranho o fato de se desejar algo tão distante, do
tipo que se encontra em qualquer lugar, basta olhar com mais atenção. Mas a
confusão e sua certeza já estavam instaladas... Não parecia acreditar na
eternidade, apenas tempo de agora, o mesmo que sua mente passava vagando em
outros lugares que não aquele. Só que... aquele sorriso, ele era mais. Como se,
por si só, tivesse a capacidade de doar uma alma inteira apenas por mostrar-se,
ou aquecer como o Sol. Viu? Confuso.
O telefone
tocou. Por problemas de saúde, o professor adiara a prova, aquela última, para
a volta às aulas. A maré de sorte havia se mostrado e, como um desesperado,
subiu correndo as mesmas escadas, catou a primeira mala que viu e simplesmente
jogou as primeiras roupas que encontrou. Vestiu algo confortável, eram umas
oito horas na direção, na solitária, correndo pela companhia. Deixou um
bilhete: Viajei. Não se preocupem,
adiantei as férias. Abraço. Abriu a porta, sentou, olhou pelo retrovisor e nem
se reconheceu. Um sorriso, que de tão grande quase lhe fechava os olhos. Estava indo buscar o Sol.
domingo, 5 de agosto de 2012
Esboço do conto perfeito
Era
um dia quente, como todos os outros 364 dias do ano naquela cidade. Um lugar
pouco conhecido, com muitas lembranças, a maioria tentando se esquecer, refazer.
Ela precisava acordar, o frio do ar-condicionado dizia ‘durma mais um pouco,
que tal?’. Foi difícil resistir. Colocando os pés quentes no chão frio,
sentando na cama e pensando, ainda de olhos fechados: que o dia de hoje seja
tão bom quanto o anterior e, se possível, melhor. Os outros ainda dormiam. Ela
precisava de café. Quente, forte, ajudaria a acordar. Na cozinha, encontrou
todos os que, assim como ela, haviam sido despertados pra alcançar a refeição
matinal. Como as manhãs passadas e sua xícara na mão, correu os olhos para
encontrar a primeira mesa que estivesse vazia, na falta de companhias com as quais
valesse a pena conversar e deixar sua bebida esfriar. Sentou e, embora fizesse
muitos planos, não esperava o que esperar para o restante do dia. Agradando
mais aos amigos que a si mesma, vestiu seu biquíni e entrou na piscina,
calculando um lugar onde fosse pouco notada.
Sem conseguir sugar o clima de euforia dos demais, simplesmente resolveu encarar o chuveiro e ouvir, com calma, o som da água caindo no chão. Mais calmamente ainda foi como saiu do banho, escolheu (meticulosamente) a roupa que usaria até a noite. Dali a pouco mais de duas horas, todos deveriam estar juntos para o almoço e, depois, todos os eventos do dia. Era o penúltimo. Depois que os compromissos importantes haviam sido cumpridos, era amigável uma bermuda e algo mais sério. Rosto pronto, cabelo penteado, vamos lá. Batom vermelho. Por trás da cor dos lábios, escondia-se alguém sem tanta vontade de atrair qualquer olhar, ser vista ou qualquer coisa do gênero. Incrível era a sua capacidade de parecer atenta ao universo de sons ao seu redor e, na verdade, permanecer quieta e pensante na redoma de sua mente. Um ser esquisito, talvez... Não havia paciência para o resto do dia, esgotada pela perseguição de um personagem incomum e insistente. Enquanto alguém que sabia mais do seu interesse que ela própria falava a muitos outros que pareciam também não prestar atenção, a janela de bate-papo piscava, com a mesma insistência do personagem chato do qual ela fugia. Preciso sair daqui – pensou. Nada de concentração. Quem sabe um pôr do Sol ajudasse, a noite estava pra cair. Já do lado de fora, apagaram-se as luzes. Faltava energia elétrica, havia sobrecarga. No meio disso tudo, resolveu andar, mesmo no breu, ainda calada, pensando no nada, na paz de estar ali, em silêncio, silêncio até de si. Ouve seu nome, numa voz tão desconhecida quanto o que havia no escuro a sua frente. Uma voz demorada, grave, agradável. No reparar, uma boa voz. No rosto, a sua expressão era a de ‘o que tá havendo?’. A curiosidade a fez virar e ver quem a chamava. Um grupo, encostado a um carro, todos desconhecidos. Tudo bem. A conversa de olhos nos olhos que, aos poucos, eliminou os menos interessantes, filtrando uma escolha, uma companhia para a qual sorrir enquanto aquilo durasse. Uma nova amizade, talvez.
E ela sorria e conversava, pois se sentia a vontade. Usava de sua espontaneidade, o que mais tarde haveria de ser dito como charme especial pelas outras pessoas. O negro da noite continuava a invadir seus olhos, mas já não havia problema, pelo contrário, companhia. Conversas, mensagens, sorrisos, praticidade. Nada a se desenrolar, uma cena de uma peça teatral minúscula e dois personagens mais alguns figurantes. No fim, era hora de ir. Despedir-se, povoar uma nova história. O fecho: um beijo. Simples, são. O corpo se expressando, clínico. O sorriso do término. A proposta da reprise. O término de um começo. Nada saíra como o planejado, apenas saíra. E com a mesma resignação da maioria dos dias, saiu, como se soubesse que a vida era daquele jeito e, hora ou outra, ela teria que aprender. Estava aprendendo, já. E se sentia bem com isso, como se a sua única e fiel companhia, sua mente, concordasse sempre e dissesse: é o destino, sinta-se bem.
Sem conseguir sugar o clima de euforia dos demais, simplesmente resolveu encarar o chuveiro e ouvir, com calma, o som da água caindo no chão. Mais calmamente ainda foi como saiu do banho, escolheu (meticulosamente) a roupa que usaria até a noite. Dali a pouco mais de duas horas, todos deveriam estar juntos para o almoço e, depois, todos os eventos do dia. Era o penúltimo. Depois que os compromissos importantes haviam sido cumpridos, era amigável uma bermuda e algo mais sério. Rosto pronto, cabelo penteado, vamos lá. Batom vermelho. Por trás da cor dos lábios, escondia-se alguém sem tanta vontade de atrair qualquer olhar, ser vista ou qualquer coisa do gênero. Incrível era a sua capacidade de parecer atenta ao universo de sons ao seu redor e, na verdade, permanecer quieta e pensante na redoma de sua mente. Um ser esquisito, talvez... Não havia paciência para o resto do dia, esgotada pela perseguição de um personagem incomum e insistente. Enquanto alguém que sabia mais do seu interesse que ela própria falava a muitos outros que pareciam também não prestar atenção, a janela de bate-papo piscava, com a mesma insistência do personagem chato do qual ela fugia. Preciso sair daqui – pensou. Nada de concentração. Quem sabe um pôr do Sol ajudasse, a noite estava pra cair. Já do lado de fora, apagaram-se as luzes. Faltava energia elétrica, havia sobrecarga. No meio disso tudo, resolveu andar, mesmo no breu, ainda calada, pensando no nada, na paz de estar ali, em silêncio, silêncio até de si. Ouve seu nome, numa voz tão desconhecida quanto o que havia no escuro a sua frente. Uma voz demorada, grave, agradável. No reparar, uma boa voz. No rosto, a sua expressão era a de ‘o que tá havendo?’. A curiosidade a fez virar e ver quem a chamava. Um grupo, encostado a um carro, todos desconhecidos. Tudo bem. A conversa de olhos nos olhos que, aos poucos, eliminou os menos interessantes, filtrando uma escolha, uma companhia para a qual sorrir enquanto aquilo durasse. Uma nova amizade, talvez.
E ela sorria e conversava, pois se sentia a vontade. Usava de sua espontaneidade, o que mais tarde haveria de ser dito como charme especial pelas outras pessoas. O negro da noite continuava a invadir seus olhos, mas já não havia problema, pelo contrário, companhia. Conversas, mensagens, sorrisos, praticidade. Nada a se desenrolar, uma cena de uma peça teatral minúscula e dois personagens mais alguns figurantes. No fim, era hora de ir. Despedir-se, povoar uma nova história. O fecho: um beijo. Simples, são. O corpo se expressando, clínico. O sorriso do término. A proposta da reprise. O término de um começo. Nada saíra como o planejado, apenas saíra. E com a mesma resignação da maioria dos dias, saiu, como se soubesse que a vida era daquele jeito e, hora ou outra, ela teria que aprender. Estava aprendendo, já. E se sentia bem com isso, como se a sua única e fiel companhia, sua mente, concordasse sempre e dissesse: é o destino, sinta-se bem.
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