Minha nossa! Era sono demais pra
uma pessoa só. Tanto por fazer, e parecia que ali havia apenas um corpo,
inerte. Lá fora, as máquinas faziam barulhos, num vai e vem pela rua que
estremecia o vidro da janela. No som, tocava aquela música que lembrava o tudo
e o nada. Uma passada pelo espelho.
- Você é maluca.
Sempre que possível, fazia bem
conversar consigo mesma. Era como concordar e discordar de todas as coisas que
estava fazendo. Naquela conversa, eram duas pessoas, com duas coisas na cabeça:
você está certa, e incrivelmente feliz; você é louca e vai se ferir, muito. O
mais importante nisso tudo era que, embora as personagens desse diálogo sempre
se confrontassem, divididas entre o certo e o errado, acabavam por escolher a mesma
opinião, como se no final da discussão chegassem à conclusão de que a
prioridade, no momento, era a busca do equilíbrio.
Era essa busca, a peça que fazia
toda a diferença, que justificaria todo o mal ou bem que se colhesse à frente.
E nisso, não só as duas concordavam, mas outras mais, as guardiãs. O trabalho
delas era, de tão complexo, simples: tentar entender e aceitar.
- Eu posso arcar com as
consequências.
- Não, você não pode.
- Posso. Ou não. Mesmo assim,
valeria a pena.
- Sim. Valeria a pena.
Um eco, sempre, a cada diálogo
interno. Costumava vir depois de uma ligação, uma vídeo-chamada, um sorriso
bobo depois de um bom dia, a leitura e releitura das palavras de e-mails trocados,
ou, mais simples, sempre antes de dormir. Mas ela sempre sabia quem ganhava. Na
verdade, nenhuma das duas. Um terceiro personagem, que fazia tudo parecer mais
fácil, mantinha o equilíbrio daquele sistema e despertava um medo, como nunca
visto antes. O medo de atravessar a porta sem saber o que havia do outro lado,
sem saber pelo que lutar ou o que esperar. Mas, como ela sempre soube, era tudo
uma questão de equilíbrio.
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