Estamos no mesmo barco e ele ainda flutua. Apesar dos pesares, fazia-se necessário o equilíbrio. Ao sabor do acaso, era preciso que ambas as partes pudessem, não se completar, mas se combinar da melhor forma possível. Isso servia, inevitavelmente, para tudo na vida. Qual me leva, qual me prende? Sorte e acaso, quem sabe? Por onde ir? Haviam muitos caminhos, com possíveis saídas. Como um episódio de Fringe, onde você descobre que cada escolha leva a uma realidade totalmente diferente em outro universo, onde quer que ele exista. Daí, fica fácil se perguntar "e se?". Então a resposta vem a cavalo: Erraria tudo exatamente igual!
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Para ouvir ;)
Então erguemos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia.
Assinado, Eu.
Estava
lá. Ao longe, mas não tão longe, podia se ouvir uma música ruim,
dessas que muita gente ouve por falta de opção. Ainda assim, aquele
momento parecia ser legal, porque estava distante de tudo. A mente
vagava pelo passado de uma história que não aconteceu. Sozinha, ou
na companhia de um sapo cor laranja de cerâmica, recordava daquele
dia de chuva onde tudo se deu.
Sim,
chovia. E realmente parecia uma cena de filme, daquelas em que o
personagem sai de casa, totalmente desprevenido e o temporal cai.
Quando não havia nenhum abrigo e só as gotas d'água caindo do céu,
nos deparamos. Dois estranhos a procura de abrigo. Não era do mau
tempo que fugíamos. Fugíamos daquela vida pacata, onde nada
acontecia e a solidão nos fazia companhia. Eram duas cabeças que,
embora em corpos diferentes, imaginavam as mesmas coisas, com os
mesmos ideais de liberdade. Ou ao menos era o que se sentia sobre
isso.
-
Droga, só me faltava essa, chegar encharcada em casa!
- Ah,
que nada! Um banho de chuva sempre lava a alma... Acho que te conheço
de algum lugar.
Não nos
conhecíamos, nunca havíamos passado perto um do outro. Era uma
desculpa típica para alongar a conversa. Trocamos nome, identidades,
afinidades, tudo no tempo de um temporal. Decerto, que incerta era a
situação. Não cabia enxergar tantos sinais numa só ocasião.
Trocamos, junto ao nome, às identidades e afinidades, os telefones e
um sorriso de despedida ao sair do sol. Seguimos nossos caminhos.
- Bom,
parou. Acho que já podemos ir.
- É,
acho que sim. Vou por aqui.
-
Então, nos despedimos, minha casa é pro outro lado.
E era
definitivamente uma manhã de domingo incomum. O mais curioso de tudo
era o fato de, depois de tanta chuva, o sol estar lá, brilhando de
um jeito quase de quem tenta dizer: "Eu sei que você está me
admirando". Sentada na varanda, um copo de suco e um livro, o
telefone tocou. Era uma voz estranha a que falava do outro lado da
linha. A voz convidava para um sorvete no mesmo parque, no próximo
domingo. Sobrou uma resposta em aberto, a indecisão. De onde estava,
dava pra ver um relevo bem incerto e belo. Parara de ventar.
Uma
semana depois, com todo o ceticismo acumulado, o sorvete parecia um
programa divertido e a loucura daquele encontro nem era tão louca
assim. No fim das contas, era para mim uma companhia agradável, que
fazia a ambos esquecer aquele velho mundo das obrigações.
E assim
ficou: o descanso dos finais de semana, agora não apenas aos
domingos, estendendo-se aos sábados, depois feriados. Fazendo bolhas
de sabão, acampando, conhecendo um restaurante por vez, o tempo
corria mais leve, até devagar. A satisfação de segunda a sexta se
resumia na pressa da distração. Incrivelmente, poderia lhe entregar
meu coração, mas o sorriso bastava. Precisamos mudar. Mais uma vez
caminhos diferentes. Combinamos então que os sorrisos que havíamos
colecionado naqueles fins de semana bastavam. E assim foi a história
do que não foi. Só por isso aquela música ruim não chateava. Não
era nela que se pensava quando o vento soprava no rosto, numa nova
varanda, fazendo lembrar dos dias de temporal em que se conhecem
distrações. Só por isso.
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