domingo, 5 de agosto de 2012

Esboço do conto perfeito


Era um dia quente, como todos os outros 364 dias do ano naquela cidade. Um lugar pouco conhecido, com muitas lembranças, a maioria tentando se esquecer, refazer. Ela precisava acordar, o frio do ar-condicionado dizia ‘durma mais um pouco, que tal?’. Foi difícil resistir. Colocando os pés quentes no chão frio, sentando na cama e pensando, ainda de olhos fechados: que o dia de hoje seja tão bom quanto o anterior e, se possível, melhor. Os outros ainda dormiam. Ela precisava de café. Quente, forte, ajudaria a acordar. Na cozinha, encontrou todos os que, assim como ela, haviam sido despertados pra alcançar a refeição matinal. Como as manhãs passadas e sua xícara na mão, correu os olhos para encontrar a primeira mesa que estivesse vazia, na falta de companhias com as quais valesse a pena conversar e deixar sua bebida esfriar. Sentou e, embora fizesse muitos planos, não esperava o que esperar para o restante do dia. Agradando mais aos amigos que a si mesma, vestiu seu biquíni e entrou na piscina, calculando um lugar onde fosse pouco notada. 
Sem conseguir sugar o clima de euforia dos demais, simplesmente resolveu encarar o chuveiro e ouvir, com calma, o som da água caindo no chão. Mais calmamente ainda foi como saiu do banho, escolheu (meticulosamente) a roupa que usaria até a noite. Dali a pouco mais de duas horas, todos deveriam estar juntos para o almoço e, depois, todos os eventos do dia. Era o penúltimo. Depois que os compromissos importantes haviam sido cumpridos, era amigável uma bermuda e algo mais sério. Rosto pronto, cabelo penteado, vamos lá. Batom vermelho. Por trás da cor dos lábios, escondia-se alguém sem tanta vontade de atrair qualquer olhar, ser vista ou qualquer coisa do gênero. Incrível era a sua capacidade de parecer atenta ao universo de sons ao seu redor e, na verdade, permanecer quieta e pensante na redoma de sua mente. Um ser esquisito, talvez... Não havia paciência para o resto do dia, esgotada pela perseguição de um personagem incomum e insistente. Enquanto alguém que sabia mais do seu interesse que ela própria falava a muitos outros que pareciam também não prestar atenção, a janela de bate-papo piscava, com a mesma insistência do personagem chato do qual ela fugia. Preciso sair daqui – pensou. Nada de concentração. Quem sabe um pôr do Sol ajudasse, a noite estava pra cair. Já do lado de fora, apagaram-se as luzes. Faltava energia elétrica, havia sobrecarga. No meio disso tudo, resolveu andar, mesmo no breu, ainda calada, pensando no nada, na paz de estar ali, em silêncio, silêncio até de si. Ouve seu nome, numa voz tão desconhecida quanto o que havia no escuro a sua frente. Uma voz demorada, grave, agradável. No reparar, uma boa voz. No rosto, a sua expressão era a de ‘o que tá havendo?’. A curiosidade a fez virar e ver quem a chamava. Um grupo, encostado a um carro, todos desconhecidos. Tudo bem. A conversa de olhos nos olhos que, aos poucos, eliminou os menos interessantes, filtrando uma escolha, uma companhia para a qual sorrir enquanto aquilo durasse. Uma nova amizade, talvez. 
E ela sorria e conversava, pois se sentia a vontade. Usava de sua espontaneidade, o que mais tarde haveria de ser dito como charme especial pelas outras pessoas. O negro da noite continuava a invadir seus olhos, mas já não havia problema, pelo contrário, companhia. Conversas, mensagens, sorrisos, praticidade. Nada a se desenrolar, uma cena de uma peça teatral minúscula e dois personagens mais alguns figurantes. No fim, era hora de ir. Despedir-se, povoar uma nova história. O fecho: um beijo. Simples, são. O corpo se expressando, clínico. O sorriso do término. A proposta da reprise. O término de um começo. Nada saíra como o planejado, apenas saíra. E com a mesma resignação da maioria dos dias, saiu, como se soubesse que a vida era daquele jeito e, hora ou outra, ela teria que aprender. Estava aprendendo, já. E se sentia bem com isso, como se a sua única e fiel companhia, sua mente, concordasse sempre e dissesse: é o destino, sinta-se bem

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