Ela fechou a
porta com toda a força que tinha. Era isso, ou gritar, chorar. Era algo físico
que estava ali pra que ela pudesse descontar a indignação que sentia por passar
por tudo aquilo. Mesmo sabendo que podia ser perigoso encarar um volante
naquelas condições, precisava fugir para algum lugar. Não era possível dirigir
tão longe até o lugar onde encontraria abrigo, mas conseguiria achar paz num pôr-do-sol
que fosse.
Naquele
momento, existia um vazio. Apenas a estrada a fazia companhia enquanto uma voz
cantava “se você nunca tentar, nunca saberá”. A cada curva, o peso diminuía,
até que os dedos, que davam a impressão de querer partir o volante em dois,
relaxaram. As primeiras lágrimas começaram a cair, mas o destino estava perto.
Saindo da rodovia, entrou numa estrada de terra, que a levaria àquele lugar. Havia
uma espécie de cabana, uma casinha que, apesar de antiga, parecia bem cuidada.
Dando a volta ao seu redor, encontraria a vista que a fizera parar ali: entre
as serras que ficavam ao fundo da construção, ela via uma cascata e o sol,
preparando-se para deixar o céu.
Com a chave do
carro ainda em mãos, abriu a mala e de lá tirou uma mochila que costumava
deixar por ali, preparada para qualquer necessidade, como aquela fuga. Poucas
pessoas sabiam da existência daquela propriedade, então lhe parecia ser um
ótimo lugar para descansar a mente. Abriu a porta da sala e encontrou aquela
poltrona, que não tinha menos de 30 anos, mas era a mais aconchegante que
conhecia. Passou direto ao banheiro, pequeno, assim como a casa. Lavou os
cabelos, entrou numa espécie de ritual. Depois do banho, vestiu o velho short
jeans e a blusa branca de algodão, que já não era mais branca depois da pintura
do apartamento há dois meses. Pegou a manta que sempre deixava sobre a velha poltrona
e então seguiu.
No mínimo
cômodo que ela considerava ser uma cozinha, havia uma porta que dava para uma
espécie de alpendre, com algumas plantas e árvores à frente. Dali dava pra ver
perfeitamente a cascata e o sol. Ela podia mais... Estendendo a manta no chão,
deitou-se e começou a ver as formas das nuvens que, por causa da hora, começavam
a ficar arroxeadas. O Sol era laranja e a cor pincelava a água que corria serra
abaixo. A impressão que dava era a de que, naquele lugar, até o Sol se escondia
mais devagar, dando tempo de preparar uma caneca de café bem quente.
Voltando,
sentia que todos aqueles problemas eram grandes, pesados, e ela, forte o
suficiente, até mais. Já não havia o desespero de momentos atrás, era
impossível de sustentá-lo ali. Concentrada no desenho que o vapor do café fazia
no ar, não ouviu o som de outro veículo chegando e estacionando perto, muito
menos os passos no caminho cheio de pedrinhas que dava até os fundos da casa. Quase
abraçando os joelhos, sentada sobre a manta e segurando a caneca enquanto
observava o céu e as primeiras estrelas que surgiam, sentiu uma mão próxima à
cintura. Estremeceu, mas não havia medo. Reconheceria aquele cheiro em qualquer
lugar, a qualquer momento. O cheiro dizia: “Não se preocupe, estou aqui. Vai
dar tudo certo”. E depois disso, o Sol finalmente se foi.