sábado, 12 de janeiro de 2013

Mal jeito.


Ela fechou a porta com toda a força que tinha. Era isso, ou gritar, chorar. Era algo físico que estava ali pra que ela pudesse descontar a indignação que sentia por passar por tudo aquilo. Mesmo sabendo que podia ser perigoso encarar um volante naquelas condições, precisava fugir para algum lugar. Não era possível dirigir tão longe até o lugar onde encontraria abrigo, mas conseguiria achar paz num pôr-do-sol que fosse.
Naquele momento, existia um vazio. Apenas a estrada a fazia companhia enquanto uma voz cantava “se você nunca tentar, nunca saberá”. A cada curva, o peso diminuía, até que os dedos, que davam a impressão de querer partir o volante em dois, relaxaram. As primeiras lágrimas começaram a cair, mas o destino estava perto. Saindo da rodovia, entrou numa estrada de terra, que a levaria àquele lugar. Havia uma espécie de cabana, uma casinha que, apesar de antiga, parecia bem cuidada. Dando a volta ao seu redor, encontraria a vista que a fizera parar ali: entre as serras que ficavam ao fundo da construção, ela via uma cascata e o sol, preparando-se para deixar o céu.
Com a chave do carro ainda em mãos, abriu a mala e de lá tirou uma mochila que costumava deixar por ali, preparada para qualquer necessidade, como aquela fuga. Poucas pessoas sabiam da existência daquela propriedade, então lhe parecia ser um ótimo lugar para descansar a mente. Abriu a porta da sala e encontrou aquela poltrona, que não tinha menos de 30 anos, mas era a mais aconchegante que conhecia. Passou direto ao banheiro, pequeno, assim como a casa. Lavou os cabelos, entrou numa espécie de ritual. Depois do banho, vestiu o velho short jeans e a blusa branca de algodão, que já não era mais branca depois da pintura do apartamento há dois meses. Pegou a manta que sempre deixava sobre a velha poltrona e então seguiu.
No mínimo cômodo que ela considerava ser uma cozinha, havia uma porta que dava para uma espécie de alpendre, com algumas plantas e árvores à frente. Dali dava pra ver perfeitamente a cascata e o sol. Ela podia mais... Estendendo a manta no chão, deitou-se e começou a ver as formas das nuvens que, por causa da hora, começavam a ficar arroxeadas. O Sol era laranja e a cor pincelava a água que corria serra abaixo. A impressão que dava era a de que, naquele lugar, até o Sol se escondia mais devagar, dando tempo de preparar uma caneca de café bem quente.
Voltando, sentia que todos aqueles problemas eram grandes, pesados, e ela, forte o suficiente, até mais. Já não havia o desespero de momentos atrás, era impossível de sustentá-lo ali. Concentrada no desenho que o vapor do café fazia no ar, não ouviu o som de outro veículo chegando e estacionando perto, muito menos os passos no caminho cheio de pedrinhas que dava até os fundos da casa. Quase abraçando os joelhos, sentada sobre a manta e segurando a caneca enquanto observava o céu e as primeiras estrelas que surgiam, sentiu uma mão próxima à cintura. Estremeceu, mas não havia medo. Reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar, a qualquer momento. O cheiro dizia: “Não se preocupe, estou aqui. Vai dar tudo certo”. E depois disso, o Sol finalmente se foi.  

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Brincando com os mapas do acaso.

Estamos no mesmo barco e ele ainda flutua. Apesar dos pesares, fazia-se necessário o equilíbrio. Ao sabor do acaso, era preciso que ambas as partes pudessem, não se completar, mas se combinar da melhor forma possível. Isso servia, inevitavelmente, para tudo na vida. Qual me leva, qual me prende? Sorte e acaso, quem sabe? Por onde ir? Haviam muitos caminhos, com possíveis saídas. Como um episódio de Fringe, onde você descobre que cada escolha leva a uma realidade totalmente diferente em outro universo, onde quer que ele exista. Daí, fica fácil se perguntar "e se?". Então a resposta vem a cavalo: Erraria tudo exatamente igual! 

Para ouvir ;)


Então erguemos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia.

Assinado, Eu.


        Estava lá. Ao longe, mas não tão longe, podia se ouvir uma música ruim, dessas que muita gente ouve por falta de opção. Ainda assim, aquele momento parecia ser legal, porque estava distante de tudo. A mente vagava pelo passado de uma história que não aconteceu. Sozinha, ou na companhia de um sapo cor laranja de cerâmica, recordava daquele dia de chuva onde tudo se deu.
        Sim, chovia. E realmente parecia uma cena de filme, daquelas em que o personagem sai de casa, totalmente desprevenido e o temporal cai. Quando não havia nenhum abrigo e só as gotas d'água caindo do céu, nos deparamos. Dois estranhos a procura de abrigo. Não era do mau tempo que fugíamos. Fugíamos daquela vida pacata, onde nada acontecia e a solidão nos fazia companhia. Eram duas cabeças que, embora em corpos diferentes, imaginavam as mesmas coisas, com os mesmos ideais de liberdade. Ou ao menos era o que se sentia sobre isso.

        - Droga, só me faltava essa, chegar encharcada em casa!
        - Ah, que nada! Um banho de chuva sempre lava a alma... Acho que te conheço de algum lugar.

        Não nos conhecíamos, nunca havíamos passado perto um do outro. Era uma desculpa típica para alongar a conversa. Trocamos nome, identidades, afinidades, tudo no tempo de um temporal. Decerto, que incerta era a situação. Não cabia enxergar tantos sinais numa só ocasião. Trocamos, junto ao nome, às identidades e afinidades, os telefones e um sorriso de despedida ao sair do sol. Seguimos nossos caminhos.

        - Bom, parou. Acho que já podemos ir.
        - É, acho que sim. Vou por aqui.
        - Então, nos despedimos, minha casa é pro outro lado.

       E era definitivamente uma manhã de domingo incomum. O mais curioso de tudo era o fato de, depois de tanta chuva, o sol estar lá, brilhando de um jeito quase de quem tenta dizer: "Eu sei que você está me admirando". Sentada na varanda, um copo de suco e um livro, o telefone tocou. Era uma voz estranha a que falava do outro lado da linha. A voz convidava para um sorvete no mesmo parque, no próximo domingo. Sobrou uma resposta em aberto, a indecisão. De onde estava, dava pra ver um relevo bem incerto e belo. Parara de ventar.
        Uma semana depois, com todo o ceticismo acumulado, o sorvete parecia um programa divertido e a loucura daquele encontro nem era tão louca assim. No fim das contas, era para mim uma companhia agradável, que fazia a ambos esquecer aquele velho mundo das obrigações.
        E assim ficou: o descanso dos finais de semana, agora não apenas aos domingos, estendendo-se aos sábados, depois feriados. Fazendo bolhas de sabão, acampando, conhecendo um restaurante por vez, o tempo corria mais leve, até devagar. A satisfação de segunda a sexta se resumia na pressa da distração. Incrivelmente, poderia lhe entregar meu coração, mas o sorriso bastava. Precisamos mudar. Mais uma vez caminhos diferentes. Combinamos então que os sorrisos que havíamos colecionado naqueles fins de semana bastavam. E assim foi a história do que não foi. Só por isso aquela música ruim não chateava. Não era nela que se pensava quando o vento soprava no rosto, numa nova varanda, fazendo lembrar dos dias de temporal em que se conhecem distrações. Só por isso.  

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Para ouvir :)


Espero que curtam o som. Orala Johnson (Rella J) tem uma voz muito legal e um ritmo que particularmente me agrada em suas composições e arranjos, além de ser uma pessoa bem divertida (tive o prazer de conhecê-la e vê-la se apresentando de perto :D).

A pequena miss Sunshine


           Olhava ao longe aquele Sol a se por. Ao mesmo tempo em que atirava pedrinhas no lago, só pelo prazer de vê-las formar ondas na água, perguntava-se se tudo o que estava fazendo tinha algum sentido, se valia mesmo a pena. Num conflito agora quase que diário, um dos muitos poucos desejos que passavam pela cabeça era o de aquela maré passasse logo, tão de repente quanto como chegara.
          O laranja se tornava mais forte aos poucos e a fazia lembrar que 'o essencial é invisível aos olhos'. Talvez por isso as pessoas não conseguissem enxergar o que ela via, ou do ângulo que via. Ficava fácil deturpar os porquês de um passado desconhecido. E mesmo sendo aquela que mais devesse se importar, não estava ao menos preocupada. Os mais sábios contam que o passado é algo que se deve deixar lá, onde aconteceu. O professor de sociologia, por sua vez, sempre dizia que nós, por mais brilhantes que fôssemos, éramos uma consequência do tempo em que vivíamos. Isso era inegável. 
          A questão inteira girava em torno de uma coisa só: a dor. Mas não uma dor presente, e sim prevista para acontecer, filha de uma 'pre'ocupação demasiada. Naquele momento, enquanto todos os outros se preocupavam com a dor que ainda não viera (nem se sabia realmente se viria, embora a maioria achasse daquilo tudo algo incontestável), não percebiam que era essa questão que agora gerava a dor. Como quando se aponta o dedo sem notar outros três na direção contrária. Onde se previa sofrimento, acontecia felicidade. Mas essa, não se sabe porque, era ignorada aos olhos dos outros. Porque o essencial, no fim das contas, era que ela estivesse feliz, mas o essencial é invisível aos olhos, ao menos aos daqueles a quem convém não enxergar.
          No restinho de luz que havia, encontrava sua conclusão: não se importava nem com passados, nem com as preocupações dos outros. Na sua fila de prioridades estava agora a vontade de estar bem. Se tudo aquilo acabasse em dor, que diferença havia? Ao menos tinha aproveitado a parte boa, a parte sorridente de tudo. Haveria crescido com todas as experiências e aprenderia a perder outros tantos medos. E era feliz em saber que se amava e sabia que, à revelia do mundo inteiro, a parte mais importante era que conhecia alguém que nunca a abandonaria: ela mesma.

domingo, 12 de agosto de 2012

Vídeo ;)


Olha só o que achei: essa pequena estrela cantando Rolling in the deep, música da Adele. Muito fofo!