sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Assinado, Eu.


        Estava lá. Ao longe, mas não tão longe, podia se ouvir uma música ruim, dessas que muita gente ouve por falta de opção. Ainda assim, aquele momento parecia ser legal, porque estava distante de tudo. A mente vagava pelo passado de uma história que não aconteceu. Sozinha, ou na companhia de um sapo cor laranja de cerâmica, recordava daquele dia de chuva onde tudo se deu.
        Sim, chovia. E realmente parecia uma cena de filme, daquelas em que o personagem sai de casa, totalmente desprevenido e o temporal cai. Quando não havia nenhum abrigo e só as gotas d'água caindo do céu, nos deparamos. Dois estranhos a procura de abrigo. Não era do mau tempo que fugíamos. Fugíamos daquela vida pacata, onde nada acontecia e a solidão nos fazia companhia. Eram duas cabeças que, embora em corpos diferentes, imaginavam as mesmas coisas, com os mesmos ideais de liberdade. Ou ao menos era o que se sentia sobre isso.

        - Droga, só me faltava essa, chegar encharcada em casa!
        - Ah, que nada! Um banho de chuva sempre lava a alma... Acho que te conheço de algum lugar.

        Não nos conhecíamos, nunca havíamos passado perto um do outro. Era uma desculpa típica para alongar a conversa. Trocamos nome, identidades, afinidades, tudo no tempo de um temporal. Decerto, que incerta era a situação. Não cabia enxergar tantos sinais numa só ocasião. Trocamos, junto ao nome, às identidades e afinidades, os telefones e um sorriso de despedida ao sair do sol. Seguimos nossos caminhos.

        - Bom, parou. Acho que já podemos ir.
        - É, acho que sim. Vou por aqui.
        - Então, nos despedimos, minha casa é pro outro lado.

       E era definitivamente uma manhã de domingo incomum. O mais curioso de tudo era o fato de, depois de tanta chuva, o sol estar lá, brilhando de um jeito quase de quem tenta dizer: "Eu sei que você está me admirando". Sentada na varanda, um copo de suco e um livro, o telefone tocou. Era uma voz estranha a que falava do outro lado da linha. A voz convidava para um sorvete no mesmo parque, no próximo domingo. Sobrou uma resposta em aberto, a indecisão. De onde estava, dava pra ver um relevo bem incerto e belo. Parara de ventar.
        Uma semana depois, com todo o ceticismo acumulado, o sorvete parecia um programa divertido e a loucura daquele encontro nem era tão louca assim. No fim das contas, era para mim uma companhia agradável, que fazia a ambos esquecer aquele velho mundo das obrigações.
        E assim ficou: o descanso dos finais de semana, agora não apenas aos domingos, estendendo-se aos sábados, depois feriados. Fazendo bolhas de sabão, acampando, conhecendo um restaurante por vez, o tempo corria mais leve, até devagar. A satisfação de segunda a sexta se resumia na pressa da distração. Incrivelmente, poderia lhe entregar meu coração, mas o sorriso bastava. Precisamos mudar. Mais uma vez caminhos diferentes. Combinamos então que os sorrisos que havíamos colecionado naqueles fins de semana bastavam. E assim foi a história do que não foi. Só por isso aquela música ruim não chateava. Não era nela que se pensava quando o vento soprava no rosto, numa nova varanda, fazendo lembrar dos dias de temporal em que se conhecem distrações. Só por isso.  

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