terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quase sem querer


O telefone tocava. Era difícil atender quando se começava a ouvir a música boa de Nando.
- Alô?
- Oi, sou eu! Vai fazer o que hoje a tarde?
- Oii! Tem nada pra fazer não...
- Vamos passear? Bora pra orla!
- Ah, vamos! Mas já tarde, né? Tô precisando ver o Sol se por.
- Ah, é, eu também.
- Então tá, às quatro eu passo aí e a gente vai.
- Ok. Beijo.
- Beijo. Tchau.
Depois de muito tempo em turbulência, parecia que as coisas estavam se ajeitando. Não do modo ‘voltando ao lugar de sempre’, mas se configurando de uma nova maneira, mais leve, mais bonita. Mais feliz. Embora tudo as acusasse de loucura aguda, a amizade que havia ali era capaz de compreender o tempo tão igual e ao mesmo tempo tão distinto pelo qual haviam passado. Coisas que as palavras não eram capazes de dizer, porque não havia para aqueles sentimentos. E, mesmo no silêncio, uma era consciente do pensamento da outra.
Por um tempo, esse silêncio era necessidade. Alma em férias, talvez. Algo acontecia, e não existia um motivo claro para que as mudanças as afetassem tanto. Talvez duas moradoras de outros B612 pelo universo afora. Muito sensíveis até às mudanças de tempo, que dirá de humor. Era uma precisão de carinho gratuito, de sorriso sincero, de paz. Apenas uma escolha do que importava.
Com o tempo, aprenderam a ver além do que se vê, perceberam o que era importante. E nessa nova fase, figurava a compreensão do que cada uma vivia, porque no fim das contas era tudo muito parecido.
- Tô aqui em baixo, já.
- Ok, já tô descendo.
- Simbora?
- AGORA!
Se aquilo não era a volta da felicidade, outra coisa não haveria de ser. O som em volume máximo, num CD de Biquíni, e duas backing vocal que não tinham a menor preocupação em estarem afinadas. De sorriso no rosto, sentaram na areia fofa da praia e simplesmente se xingaram com aqueles apelidos habituais. Riram, cataram peixinhos nos corais e, mesmo sem dizer muito, sabiam que podiam contar uma com a outra e que seriam felizes assim. Só isso bastava. O Sol se despedia, mas como um pacto, a alegria iria continuar, no que dependesse delas, ainda por muito tempo.

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