O telefone tocava. Era difícil
atender quando se começava a ouvir a música boa de Nando.
- Alô?
- Oi, sou eu! Vai fazer o que
hoje a tarde?
- Oii! Tem nada pra fazer não...
- Vamos passear? Bora pra orla!
- Ah, vamos! Mas já tarde, né? Tô
precisando ver o Sol se por.
- Ah, é, eu também.
- Então tá, às quatro eu passo aí
e a gente vai.
- Ok. Beijo.
- Beijo. Tchau.
Depois de muito tempo em
turbulência, parecia que as coisas estavam se ajeitando. Não do modo ‘voltando
ao lugar de sempre’, mas se configurando de uma nova maneira, mais leve, mais
bonita. Mais feliz. Embora tudo as acusasse de loucura aguda, a amizade que
havia ali era capaz de compreender o tempo tão igual e ao mesmo tempo tão
distinto pelo qual haviam passado. Coisas que as palavras não eram capazes de
dizer, porque não havia para aqueles sentimentos. E, mesmo no silêncio, uma era
consciente do pensamento da outra.
Por um tempo, esse silêncio era
necessidade. Alma em férias, talvez. Algo acontecia, e não existia um motivo
claro para que as mudanças as afetassem tanto. Talvez duas moradoras de outros
B612 pelo universo afora. Muito sensíveis até às mudanças de tempo, que dirá de
humor. Era uma precisão de carinho gratuito, de sorriso sincero, de paz. Apenas
uma escolha do que importava.
Com o tempo, aprenderam a ver além
do que se vê, perceberam o que era importante. E nessa nova fase, figurava a
compreensão do que cada uma vivia, porque no fim das contas era tudo muito
parecido.
- Tô aqui em baixo, já.
- Ok, já tô descendo.
- Simbora?
- AGORA!
Se aquilo não era a volta da
felicidade, outra coisa não haveria de ser. O som em volume máximo, num CD de Biquíni,
e duas backing vocal que não tinham a menor preocupação em estarem afinadas. De
sorriso no rosto, sentaram na areia fofa da praia e simplesmente se xingaram
com aqueles apelidos habituais. Riram, cataram peixinhos nos corais e, mesmo
sem dizer muito, sabiam que podiam contar uma com a outra e que seriam felizes
assim. Só isso bastava. O Sol se despedia, mas como um pacto, a alegria iria
continuar, no que dependesse delas, ainda por muito tempo.
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