quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Vaidade


Olhando pra uma prateleira inteira de sapatos de salto alto, ela se lembrava de como era boa a sensação de surpreender. Um bom salto fazia uma grande diferença em tudo, e ela mesma era uma prova disso. De todos os modelos possíveis, pegava uns cinco pares e começava a prová-los, mas no final das contas, acabava querendo comprar todos e então, como se fossem cães num petshop, eles faziam cara de ‘compre-me, por favor’.  Não que fosse egoísta ou apegada a essas futilidades, pelo contrário, permanecia centrada em seus objetivos, entre os quais não figurava passar tardes inteiras escolhendo roupas ou calçados ou joias. Apenas fazia-lhe bem se sentir bem.
Naquela nova fase, poucas eram as coisas que proporcionavam essa sensação de bem-estar. Poucas e simples, as quais faziam todas as outras parecerem medíocres, pequenas demais.
- Como foi seu dia?
- Ah, dei uma passada no shopping, achei o sapato perfeito pro dia da festa.
- Mais um sapato? – não era um tom de censura, mas de riso, seguido por um beijo na testa – Daqui a alguns dias eu espero que todos esses pés apareçam.
- E, obviamente, você continuaria me querendo, mesmo que eu tivesse 50 pés. Admita.
- É, continuaria, Dona Centopeia.
Naquelas tardes em que não se tinha nada por fazer, a não ser sorrir ou cantarolar, nossa personagem fazia questão de lembrar duas coisas. A primeira era que a vida havia sido generosa com ela. A segunda, a generosidade da vida não dura para sempre, então ela deveria estar preparada. Para quê? Não se sabia. Mas de que poderia ela reclamar, quando tinha a chance de escolher um bom livro, tirar aquela velha manta do armário e partir ao jardim para ler sob o Sol da tarde? Seria injusta qualquer reclamação.
- Sabe, gosto de te ver assim.
- Assim como? – Desistiu, deixando o livro aberto na página que estava lendo e virando-se em direção à voz. – Uma pintura mal feita de Alice no País das Maravilhas sem livro de matemática e árvore? – O tom era simplesmente de brincadeira.
- Também, mas eu ia dizer assim, com o cabelo bagunçado, esquecida do mundo enquanto lê. O tipo de cena que me deixa em paz.  – Concordou ele, com doce um sarcasmo e sinceridade imensa na voz ao mesmo tempo.
Mal sabia que não era ele que estava em paz por aquilo, mas ela, presa a um universo em que tudo fazia sentido, livre e colorido. E assim, voltou a ler, sabendo quem era, onde estava e que era feliz pelas pequenas coisas da vida.

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