Olhando pra
uma prateleira inteira de sapatos de salto alto, ela se lembrava de como era
boa a sensação de surpreender. Um bom salto fazia uma grande diferença em tudo,
e ela mesma era uma prova disso. De todos os modelos possíveis, pegava uns
cinco pares e começava a prová-los, mas no final das contas, acabava querendo
comprar todos e então, como se fossem cães num petshop, eles faziam cara de ‘compre-me,
por favor’. Não que fosse egoísta ou
apegada a essas futilidades, pelo contrário, permanecia centrada em seus
objetivos, entre os quais não figurava passar tardes inteiras escolhendo roupas
ou calçados ou joias. Apenas fazia-lhe bem se sentir bem.
Naquela nova
fase, poucas eram as coisas que proporcionavam essa sensação de bem-estar.
Poucas e simples, as quais faziam todas as outras parecerem medíocres, pequenas
demais.
- Como foi seu
dia?
- Ah, dei uma
passada no shopping, achei o sapato perfeito pro dia da festa.
- Mais um
sapato? – não era um tom de censura, mas de riso, seguido por um beijo na testa
– Daqui a alguns dias eu espero que todos esses pés apareçam.
- E,
obviamente, você continuaria me querendo, mesmo que eu tivesse 50 pés. Admita.
- É,
continuaria, Dona Centopeia.
Naquelas
tardes em que não se tinha nada por fazer, a não ser sorrir ou cantarolar,
nossa personagem fazia questão de lembrar duas coisas. A primeira era que a
vida havia sido generosa com ela. A segunda, a generosidade da vida não dura
para sempre, então ela deveria estar preparada. Para quê? Não se sabia. Mas de
que poderia ela reclamar, quando tinha a chance de escolher um bom livro, tirar
aquela velha manta do armário e partir ao jardim para ler sob o Sol da tarde?
Seria injusta qualquer reclamação.
- Sabe, gosto
de te ver assim.
- Assim como? –
Desistiu, deixando o livro aberto na página que estava lendo e virando-se em
direção à voz. – Uma pintura mal feita de Alice no País das Maravilhas sem
livro de matemática e árvore? – O tom era simplesmente de brincadeira.
- Também, mas
eu ia dizer assim, com o cabelo bagunçado, esquecida do mundo enquanto lê. O
tipo de cena que me deixa em paz. –
Concordou ele, com doce um sarcasmo e sinceridade imensa na voz ao mesmo tempo.
Mal sabia que
não era ele que estava em paz por aquilo, mas ela, presa a um universo em que
tudo fazia sentido, livre e colorido. E assim, voltou a ler, sabendo quem era,
onde estava e que era feliz pelas pequenas coisas da vida.
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